AÇÃO DE FORMAR LEITORES CRÍTICOS
“Ler significa em primeiro lugar, ler criticamente, o que quer dizer perder a ingenuidade diante dos outros, percebendo que atrás de cada texto há um sujeito, com uma prática histórica, uma visão de mundo (um universo de valores), uma intenção.” (KUENZER, 2002, p. 101). A leitura é geradora de significados, em que ao ler, o leitor cria seu próprio texto com base no que foi lido, concordando ou discordando da ideia principal. Isto faz com que a leitura seja diferenciada da decodificação de sinais, reprodução mecânica de informações que por muito tempo foi considera como interpretação textual, “[...] como atividades constitutiva de sujeitos capazes de interagir no mundo e nele atuar como cidadão” (BRANDÃO E MICHELITTI APUD. CHIAPPINI, 1998, p. 22).
Dessa forma não se deve apresenta ao aluno uma leitura que se centre no sentido primeiro das palavras, mas sim uma leitura que abra lacunas, que oportunize ao leitor, criar e recriar a partir do que foi lido. Trabalhar esse tipo de leitura pressupõe a formação de um leitor crítico e reflexivo e capaz de interagir em sociedade, sensibilizados dos seus direitos e deveres preparados para intervir no seu meio.
Nesse sentido, o papel do professor não se resume a transmitir conhecimento, mas de criar situações significativas, que dêem condições ao aluno desenvolver estratégias de leitura, trazendo para a sala de aula todo o tipo de texto: literário, informativo, publicitário, dissertativo, etc., colocar essas linguagens em conflito, para conscientizar os alunos de que a linguagem é uma forma de atuar, influenciar e intervir na sociedade e no mundo.
Sem dúvida, aprender a ler para compreender e familiarizar-se com todos os gêneros textuais é uma habilidade para toda a vida, dentro e fora da escola.
Segundo Yunes, a formação de leitores contará com atividades que contemplem as linhas que tecem a leitura, que são:
- Memória: o ato de ler,quando pede a atitude responsiva do leitor, suscita suas memórias, que guardam seus sonhos, suas opiniões, sua visão de mundo. O ato de ler convoca o leitor ao ato de pensar:
- Intersubjetividade: o ato de leitura é interação não apenas do leitor com o texto, mas com as vozes presentes nos textos, marcas que os falantes fazem da língua, discursos que atravessam os textos leitores.
- Interpretação: a leitura não acontece no vazio. O encontro de subjetividade e memórias resulta na interpretação. As perguntas de interpretação de textos que tradicionalmente dirigimos aos alunos buscam desvendar um possível mistério do texto e esquecem-se do mistério do leitor.
- Fruicão: o ato de ler não se esgota ao final da leitura e das sensações. A leitura permanece. E nisso o prazer que ela proporciona difere do prazer que se esgota rapidamente.
- Intertextualidade: o ato de ler envolve resposta a muitos textos, em diferentes linguagens, que antes do ato de leitura permeiam o mundo e criam uma rede de referencias e recriações: palavras, sons, cores, imagens, versos, ritmos, títulos, gestos, vozes, etc. No ato de ler, a memória recupera a intertextualidade. (YUNES, 1995, p. 194)
De acordo com a definição acima, um texto não pode ser compreendido como algo pronto e acabado, pelo contrário, deve ser entendido como uma estrutura em acabamento, com lacunas, e que necessita que alguém o complete e atribua um caráter significativo.
Para Kleiman (1998, p. 61), “O ensino da leitura é um empreendimento de risco se não estiver fundamentado numa concepção teórica firme sobre os aspectos cognitivos envolvidos na compreensão de texto. Tal ensino pode facilmente desembocar na exigência de mera reprodução das vozes de outros leitores, mais experiente ou mais poderoso do que o aluno.”
De acordo com a autora acima mencionada, se o trabalho com a leitura na sala de aula não tiver embasado em uma concepção bem definida de leitura, ou seja, se o professor e a escola não tiverem teoria suficiente e objetiva bem definida acerca do que pretende através desse trabalho, o mesmo corre o risco de não se configurar em si, e também pode tomar outros rumos, distanciando-se do que se pretende que é utilizar a leitura para formar cidadãos cada vez mais críticos e reflexivos.
Ler compreensivamente é utilizar uma prática que precisa ganhar cada vez mais espaço nas escolas e fora dela, pois é através desse ato que o indivíduo compreende o mundo e a sua maneira de nele atuar como cidadão, sensibilizado dos seus direitos e deveres. A leitura está presente, nas mais variadas situações da vida do ser humano e cada vez mais se faz necessário explorá-la em sala de aula, utilizando mecanismos que desperte o senso crítico no aluno e deixe de ser encarado com atividade sem significado para o aprendizado dos alunos.
A leitura não deve ser encarada nem pelo professor nem pelo aluno como uma obrigação, e sim como uma atividade prazerosa. Para tanto, o professor deve demonstrar paixão pela mesma e apresentá-la como fundamental para a formação intelectual dos educandos.
Segundo Kleiman:
“O leitor proficiente faz escolhas baseando-se em predições quanto ao conteúdo do livro. Essas predições estão apoiadas no conhecimento prévio, tanto sobre o assunto (conhecimento enciclopédico), como sobre o autor, a época da obra (conhecimento social, cultural, programático) o gênero (conhecimento textual). Daí ser necessário que todo programa de leitura permita ao aluno entrar em contato com um universo textual amplo e diversificado”. (KLEIMAN, 1998, P.51
Assim, é essencial para o sucesso com o trabalho da leitura em sala de aula, a utilização de um universo textual amplo e diversificado, para que o aluno possa adquirir autonomia e escolher o tipo de texto que mais se encaixa com o seu gosto ou com suas necessidades. Por isso, é importante proporcionar para os alunos situações diversificadas, nas quais a leitura esteja em foco, pois se aprende ler lendo e a interpretar o que leu interpretando. No entanto, para se formar um leitor crítico o mais coerente é propor para o estudante leitura crítica. As estratégias de leitura envolvem vários tipos de conhecimento e várias habilidades do leitor ao manusear o texto. Segundo Kleiman:
“quando falamos de leitura, estamos falando de operações regulares para abordar o texto. Essas estratégias podem ser inferidas a partir da compreensão do texto, que por sua vez é inferida a partir do comportamento verbal e não verbal do leitor, isto é, do tipo de respostas que ele dá a perguntas sobre o texto, dos resumos que ele faz, de suas paráfrases, como também da maneira como ele manipula o objeto: se sublinha, se apenas folheia sem se deter em parte alguma, se passa os olhos rapidamente e espera a próxima atividade começar, se relê.” (KLEIMAN, 1998, p.49).
Para o trabalho com a leitura, é importante que se utilize estratégias, as quais oportunizem aos alunos adquirirem certa familiaridade para abordar o texto, adquirindo intimidade com o texto escrito e criando maneiras próprias e confortáveis de entrar em contato com a leitura e compreender o que leu. A autora mencionada acima afirma que as estratégias de leitura são importantes para o leitor apropriar-se do texto. No entanto, não são suficientes para garantir que o trabalho com a leitura na sala de aula se concretize se fazendo necessário um planejamento cuidadoso e principalmente coerente com a realidade do aluno.
A leitura precisa-se fazer presente na vida dos estudantes, não como algo paralelo do seu ensino-aprendizagem, mas como alguma coisa essencial para o desenvolvimento cognitivo dos estudantes e principalmente dentro de um contexto real de leitura e análise de textos, para que o ato de ler possa passar a fazer sentido para os educandos.
O texto se modifica a cada leitura que se realiza, porque o leitor coloca nele suas experiências, seus conhecimentos, aspectos de sua cultura, sua visão de mundo e também a sua opinião a respeito do tema que nele está exposto. Por isso trabalhar com a leitura em sala de aula precisa que se crie situações com as quais os alunos possam ler os textos, não só uma, mas várias vezes, para perceber que seu conteúdo é uma fonte inesgotável de informação e de criação de novos conceitos.
Um ambiente propício para desenvolver a leitura na escola, favorece as atividades pedagógicas que visam à formação de leitores, mas se a instituição não dispuser deste espaço, não é motivo para não realizar um trabalho voltado para o incentivo ao hábito de ler, pois mais significativo do que o local é o trabalho e/ou as atividades que se materializam para seduzir os alunos para o hábito da leitura crítica.
Portanto, o objetivo do ensino deve ser o de aprimorar a competência e melhorar o desempenho lingüístico do aluno, tenda em vista a integração e a mobilidade social do indivíduo, além de colocar o ensino numa perspectiva produtiva.
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